A Lei de Thelema é Fascista?

Olá, queridos!

Como vão?

Recentemente, navegando no reddit, na comunidade r/thelema, me deparei com um usuário que tende a atacar adeptos da religião. Ao que parece ele é um praticante de ocultismo e uma pessoa relativamente inteligente, instruída, etc, que pública num site próprio seus artigos, e que possui fortes opiniões, muitas delas claramente verdadeira sobre a persona de Crowley, alguém claramente problemático (e que magista não é?), e também sobre a doutrina da lei de Thelema.

Deixarei o link do artigo em seu site abaixo, no qual ele expõe diversos pontos à respeito da apologia, feita em Liber AL, ao fascismo, ao autoritarismo, ao elitismo - e ao feudalismo que Crowley defendeu publicamente.

https://lvxnox.com/is-thelema-fascist/

Gostaria da opinião dos adeptos.

O sistema da A.A. ensinou muitas coisas para mim, e mesmo a religião thelêmica foi a forma mais libertária de doutrina com a qual já me deparei. Como separar Thelema de Crowley? E mesmo como separar Thelema de seu livro mais sagrado? Acreditam que os trechos expostos pelo autor realmente expõe o elitismo nesta doutrina, ou apenas o elitismo em Crowley? Thelema é apenas mais uma religião que justifica as desigualdades e injustiças da sociedade?

Agradeço a sua atenção!

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Olá!

Bom, inicialmente eu queria dizer que não li o site e todas as conexões feitas pelo amigo que possui esta opinião, uma vez que conforme explicarei abaixo, as justificativas das ideias por ele expostas em nada serviriam para a minha linha de raciocínio, no máximo eu perderia tempo buscando dar novo enquadramento aos trechos por ele citados ou buscar formas de retórica para vencer o argumento.

Dito isto eu gostaria de começar dizendo que eu possuo uma visão talvez controversa quanto ao enquadramento posterior de livros em especial em questões sociais, humanitárias.

Desta forma, é imperioso que ressaltemos que Crowley viveu em periodo anterior ao fascismo, iniciado por Mussolini na década de 20, lembrando que o Livro da Lei é do inicio do século (1904 se não me engano). Noutro giro, eu me lembro de ler em algum livro o qual não me recordo o nome ou autor, que se quisermos podemos transformar contos de crianças em contos ocultistas buscando significados nas mais diversas coisas.

Bom, ao se afastar um pouco da ideia de Thelema como algo rígido e imutável, o que eu realmente consigo ver, e pela rápida lida que dei no site, vejo que ele busca seus próprios significados.

Pegarei um trecho do site em que ele comenta que Crowley abraçou o fascimo muito diretamente:
“Here we have Crowley embracing fascism. Very directly.”

II:21. Nós não temos nada com o proscrito e o incapaz: deixai-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é vício de reis: pisa o infeliz & o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo. [Não penses, ó rei, sobre aquela mentira: Que Tu Deves Morrer: em verdade, tu não morrerás, mas viverás. Agora, que seja compreendido: Se o corpo do Rei dissolver, ele permanecerá em puro êxtase eternamente. Nuit! Hadit! Ra-Hoor-Khuit! O Sol, Força & Visão, Luz; esses são para os servidores da Estrela & da Cobra.]

Importante frisar que o trecho entre colchetes foi omitido no site o que já demonstra uma necessidade de enquadramento retórico. Nesse sentido, a interpretação literal desta parte levaria ele a dizer que Crowley advoga pela escravidão ao dizer que “os escravos servirão”.

Acredito que em uma comunidade de Thelema a maioria deve compreender o sentido figurado nas palavras e que não irá sair pisando em ninguém (a menos que seja necessário rs),

Era isso que queria dizer.

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Com a licença dos senhores, gostaria de acrescentar umas rápidas colocações:

Em primeiro lugar, acho importante dizer que Thelema, pelo menos segundo eu a compreendo, é uma Lei libertária. E assim sendo, oposta a todo o pensamento autoritário, inclusive o fascista.

Em segundo lugar, que julgar as ideias de Crowley à luz dos valores posteriores a ele é flertar com o anacronismo. Assim como tomá-lo como expoente máximo e porta-voz de Thelema, seria confundir o mensageiro com a mensagem. Crowley foi o veículo de expressão de algo muito maior do que ele, e que ao que consta, teria permanecido, inclusive para ele, um mistério por muito anos. Quer tenha sido ele veículo dos Deuses, quer tenha sido do seu próprio inconsciente, ou do que quer que seja, reduzir Thelema ao pensamento e opinião de Crowley é reduzi-la a uma esfera apenas humana individual; o que não me parece que seja o caso.

E em terceiro lugar, que escrever um ofício com a tradução da mensagem desnudada de seu simbolismo é, na minha opinião, a própria receita do insucesso no que tange à compreensão da mesma. Não à toa as coisas foram ditas do jeito que foram ditas – usando-se de linguajar muito particular –, nem tampouco será à toa a advertência no que tange à não interpretá-las para o público ou tecer divagações sobre ela. A razão pode ser um enganador insidioso. Não cabe literalidade. Seria raso se assim fosse.

O simbolismo, a alegoria, são a própria linguagem do inconsciente.

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Nem fascista e tão pouco comunista.
O lema é ‘faça o que tu queres’ e nenhum fanatismo deve ajudar ou convergir com qualquer tentativa de moralizar.

Ao que entendi de Thelema, busca-se atingir a verdadeira vontade sem limites para consigo mesmo.

E por fim, mais de 90 porcento dos escritos falam de magia, tantrismo velado e simbologia mitológica.

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As pessoas insistem em não entender que quando é dito que deve fazer o que tu queres, refere-se à verdadeira vontade. Comoreender tal conceito é extremamente importante para entender essa frase.

Olá, meus caros.

Algo que devo pontuar é: Não duvido do comprometimento dos thelemitas com a liberdade, não duvido que saibam quão contrario ao ideal que professam é toda forma de autoritarismo.

Gostaria de dizer que obtive nas respostas dos colegas alguma elucidação, mas não posso, pois não foi o caso. Pelo contrário, as respostas são similares quando uma pergunta do mesmo gênero é dirigida aos fanáticos de qualquer religião. É óbvio que o cristianismo não é fascista, pois seu mito é anterior, o que não o desclassifica como o maior disseminador de ódio, segregacionismo do mundo, apoiando ou servindo de base para diversos regimes totalitários, desde o feudalismo, passando pela monarquia e seguindo até o nacional socialismo alemão, o que torna obsoleto o fato de um ser anterior ao outro.

@Probus, a citação que segue é a resposta de qualquer religioso, interpretando as desconexas ideias de seu livro sagrado para fazer caber seu mundo dentro dele. Isto, é claro, não exclui os possíveis insights advindos disso, a grandeza da filosofia que é transmitida através do livro X, inspirado pelo deus Y, mas é pouco para mim, não posso pautar a minha realidade num livro que, mesmo que não esteja falando disso, pode ser usado para defender coisas absurdas, oriundas de uma mente como a que possuiu Crowley, que de certo, jamais se libertou do Ego.

Repito: O que qualquer religioso faria. Na verdade, o que me atraiu para Thelema e para a A.A. é o método da ciência, a busca pelo entendimento das coisas que, à princípio, não são inteligíveis.

É bastante verificável que não precisamos fazê-lo, visto que são exatamente isso. A cifra da nossa realidade infantilizada para ser entregue às crianças, e as crianças de ontem criaram o mundo de hoje. São histórias com coisas macabras mascaradas, segredos difíceis de elucidar, entregue assim, com uma simples roupagem nova, à crianças, que não são capazes de dar a devida compreensão, quase tão perversas quanto acredito que o Liber Legis seja, mascarando à plena vista as opiniões de alguém, no mínimo, sórdido. Não tenho um aprofundado conhecimento da biografia do Crowley, mas tenho certeza de que, como a maioria de nós, ele veio de um berço cristão. Acredito que esteja claro onde quero chegar.

Invertendo a pergunta que nomeia a publicação, se fascistas fossem também thelemitas, eles estariam de acordo com suas verdadeiras vontades, apesar do sofrimento e miséria que causam?

E nós sabemos o que acontece quando pessoas acham que tem o direito de pisar umas nas outras.

O que me perturba nesta religião, que possui metas espirituais libertárias, professa o método cientifico, mas condena o uso da razão, que apesar de sim, nos cegar para as coisas imateriais, também é a maior ferramenta cientifica, a arma para vencer a si próprio, coisa que Crowley também não fez.

O que nunca foi exclusividade de mentes progressistas, como os nazistas e tradicionalistas americanos contemporâneos nos deixaram claro.

Agradeço à todos pelas repostas. Concluo que, de fato não há nada parecido em Thelema, mas todas estas coisas (nuances de pensamento retrógrado) existiram em Crowley, uma figura caricata, que representa males que todo aquele comprometido com sua Verdadeira Vontade deveria combater.

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Então, acho que primeiro cabe que eu diga que vejo a crítica como absolutamente válida. Thelema (ao menos enquanto religião) não é, nem de longe, um assunto de fácil compressão, e qualquer um que julgue compreendê-la em sua integridade, ou é um gênio, alguma espécie de sábio que em muito me supera, ou um ingênuo. E a seus livros sagrados, assim como toda literatura simbólica (e até não simbólica, eu diria) passível de (má) interpretação.

Dito isto, no que tange a Crowley, quero refirmar que prefiro crer que Thelema não se reduza a ele, nem tampouco emerja dele enquanto ego humano. Se algo em Crowley foi usado como veículo da Lei, eu espero sinceramente que esse instrumento esteja para além do seu pequeno eu ordinário. E se o axioma falha (ou está à mercê de leitura falha), se é dúbio, se não é claro; o sejamos nós ao tomar dele para nosso uso apenas e tão somente o que pudermos extrair de melhor.

Liber Legis é passível sim, repito, das mais diversas interpretações, inclusive no que envereda para o escabroso, o absurdo, e o “diabólico” até, dirão alguns. Entretanto, somos nós os seus interpretes, de nós para nós mesmos e de preferência para nenhum outro. Se acaso fazemos uma leitura errada, (crassamente errada, em alguns casos) estaremos incorrendo em um erro capaz de colocar a perder toda uma vida que se optou devotar à Grande Obra. A nós pertence o ônus.

Ocorre no que tange à eventuais leituras fascistas, que imagino que se trate ainda de uma questão de índole ou inclinação, as quais penso que sejam principalmente decorrentes da educação que recebemos, quero dizer com isso: mesmo que eu faça dele uma leitura fascista, se o fascismo não me seduz, não me seduzirá o livro. E se me seduz o fascismo, tampouco o livro de dissuadirá, pouco importando as suas palavras, por libertárias que sejam. Compreendo a sua preocupação, mas quem almeja o autoritarismo não precisa de chancela. E àquele que acha que no pensamento castrador está a sua Verdadeira Vontade, me resta lhe desejar que tente a sorte (vai precisar!).

O que me perturba nesta religião, que possui metas espirituais libertárias, professa o método cientifico, mas condena o uso da razão, que apesar de sim, nos cegar para as coisas imateriais, também é a maior ferramenta cientifica, a arma para vencer a si próprio, coisa que Crowley também não fez.

A condenação não está no uso da razão, mas na absoluta dependência que o homem moderno desenvolveu por essa ferramenta – uma dentre tantas. A razão não é só útil, ela é fundamental, mas solitária ou hipertrofiada ela faz de nós seres cientificistas e narcisistas. Transcendê-la não é a desprezar ou anular, mas ser capaz de estar um passo para além dela, colocá-la sob a tutela da vontade.

De toda forma, a discussão é extremamente saudável, e oxigena, se não o sistema – já que este é o que é, sendo consenso que deva permanecer intocado – , ao menos a cabeça da gente com relação aos seus meandros obscuros.

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