Os Caminhos de Theth e Lamed

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei!

Tenho estudado as correspondências do Tarot na Santa Qabalah durante alguns anos, e venho lidando com algo que, provavelmente foi tratado por alguém, mas não pude encontrar nada a respeito.

Se subtrairmos 11 da numeração do caminho encontraremos com facilidade a sua correspondência nos trunfos (com exceção do Imperador e da Estrela). Mas ao realizarmos a operação com os caminhos citados veremos que os Atu VIII e XI estão invertidos. O Ajustamento, que derivado da ordem das 22 cartas, deveria ocupar o 19° caminho é atribuído ao 22° conforme 777, e assim também com a Volúpia, que está no 19° caminho, mas seguindo a lógico seria o 22° caminho.

Consigo facilmente imaginar que o exposto acima é proposital, afim de ocultar maiores mistérios e oferecer aos adeptos um enigma. Não tem sido difícil para mim lidar com a disparidade, até que ela começasse a interferir no trabalho prático. Por diversas vezes me vejo criando alegorias que estão em desacordo com o 777 devido a esta disparidade, como quando se associa A Volúpia à Ra-Hoor-Khuit, seu oposto Hoor-Pa-Kraat seria por definição o caminho contrário, geralmente associado ao Eremita, o que só faria sentido invertendo os caminhos de Theth e Lamed. O caminho de Libra de certo poderia atravessar da Misericórdia à Força, tanto quanto Leão poderia ir da Força à Beleza.

Volúpia é de muitas formas uma maneira de Ajustamento e vice-versa, mas me parece que é muito mais plausível a carta da justiça, a carta da deusa Maat, ligar Chesed e Geburah, a capacidade de ponderar e jugar se referindo as sephirot equivalentes, bem como a carta da força ligar Geburah e Tiphareth, vindo de uma necessidade catabólica de descida ao denso (ou elevação ao sutil) até à iluminação jactante (ou até o expurgo equilibrador/polarizador expresso pelo Sol), principalmente por se tratar de Nossa Senhora Babalon se expressando no Atu XI.

O que corrobora esta proposição é que Lamed, “o braço estendido”, trata-se da balança cósmica, que depende do movimento celeste, há algo a ser balanceado, portanto, a ideia de matéria formulada, mas em plena restrição em Chesed, e a incursão à ira da matéria que se zanza e busca a libertação em Geburah, o braço que se estende dentro da Árvore da Vida equilibrando os opostos cujos graus às vezes parecem ser tão distantes quanto Kether e Malkuth. E Teth, a serpente, o mais potente signo solar, expresso na energia ígnea de Marte, mas sem valor até que encontre no Redentor, a face de Deus que é visível ao homem, que lhe dá o poder sobre a vida chamado paixão, a Besta (Geburah) que encontra quem o domina (Tiphareth) e juntos se tornam o Leão.

Aguardo dos irmãos uma opinião, para que possamos debater o assunto e compartilhar da sagrada filosofia exposta na Qabalah, e acima disto, aplicá-la na Grande Obra.

Amor é a Lei, Amor sob Vontade!

Antes de começarmos a discussão quero citar uma frase do Crowley no 777:

“Esta coluna dá apenas as atribuições atuais que devem ser tomadas como basilares para quaisquer investigação do Tarô. São os termos convencionais e nada mais.”

Aqui ele se refere à coluna 14, Atribuições Gerais do Tarô.

Vamos lá, você argumenta que o Ajustamento deveria estar no caminho da Força e vice-versa porque a ordem crescente dos caminhos, a contagem, condiz com os números destes Arcanos no tarô.

1.Não deves interpretar desta maneira. Como o Crowley escreveu, a relação do Tarô com os caminhos serve mais para o teu conhecimento dos Arcanos do Tarô do que para o relacionamento da Árvore como um todo. Mas supondo que queiramos encontrar alguma relação entre a comunicação das Sephiroth utilizando-nos do Tarô, temos que levar em conta sempre os títulos dos arcanos dos caminhos e não seus números, dessa forma a Força ou Volúpia continuaria sendo relacionada com o caminho 19 e o Ajustamento com o 22.

  1. Não concordo que Harpócrates seja o oposto de Rá Hoor Khuith mas sim um outro aspecto dessa Divindade. Observe o Arcano “O Aeon” e veja que a imagem sugere que são complementares e não opostos. A associação de Harpócrates com o Eremita seria uma interpretação particular e não tenho direito a opinar sobre isso.

  2. Sim, faz sentido que Libra, a Balança, seja o equilíbrio entre a Misericórdia e a Força, no entanto a Balança já é um símbolo relacionado às tríades da Árvore, não haveria a necessidade de atribuir este signo ao caminho em questão para isso, além disso, como você mesmo apontou, Volúpia é um tipo de Ajustamento, de harmonização das energias e, portanto, cabe bem como fator de equilíbrio entre Chesed e Geburah. Lembrando que o caminho é a resolução de duas Sephiroth, é sua “fusão” por assim dizer, dessa forma a Volúpia é a manifestação do Amor e da Força [sexo enfim] representadas por estas Sephiroth opostas.

  3. A capacidade de ponderação podem ser considerada como pertencente à Sabedoria, Chokmah, portanto Toth podendo ser relacionado. Toth é o consorte de Maat, que pode ser considerada uma divindade atribuída à Binah, Entendimento ou Inteligência, atributos da mente que também têm relação com a faculdade de julgamento mencionada.

  4. A ideia de matéria parece ser anterior a Chesed, pertenceria a Kether na minha opinião se considerada como “existência”. Se considerarmos matéria como uma ideia diferente da do “ser” então essa ideia poderia ser atribuída á Binah ao invés de Chesed. Quando consideramos o Universo como ele é, Chesed é a emanação da matéria do nosso universo, não é uma ideia mas sim a própria coisa, a própria matéria que, reunida e organizada por um tipo de “amor” ou atração das partículas, começa a formar as ligações moleculares. Pode-se dizer que há uma “restrição” do potencial nessa fase, mas essa restrição seria rompida por uma força excessiva e não por uma harmonia, daí surge Geburah, pela metáfora do salto do leão, explodindo, destruindo, rompendo com as ligações e , dessa forma, gerando novos modelos, novos padrões na matéria. O processo pode ser semelhante às reações nucleares no núcleo do Sol.

  5. Se tomarmos o exemplo do Sol, após as moléculas unidas em Chesed se “libertarem” pela ação de Geburah elas encontram um equilíbrio, um novo estado de ser em Thiphareth. A atribuição de Lamed aqui faz todo sentido portanto, da mesma forma que Teth, o Leão, faz no caminho 19.

  6. É um equívoco dizer que Tiphareth domina Geburah, Tiphareth é passiva para Geburah, é o contrário que ocorre portanto.

Espero ter ajudado nos teus estudos, tuas colocações foram muito inteligentes, mas uma dica é não tentar modificar o que já está tradicionalmente atribuído, pode acabar ocasionando em confusão e na prática mágica pode lhe trazer problemas. Abraços.

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